sábado, 21 de novembro de 2009

Ou então


Você vê uma planta crescendo num muro.
Eu vejo um muro crescendo numa planta.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Escatologia

- Engole.

Ela me olhou com cara de choro e eu dei um tapa forte em seu rosto. Ela fez que ia chorar, mas ao menos isso ela já sabia - ela não devia nem soluçar na minha frente. Agora, ela estava aprendendo a fazer as coisas quando eu mandava, sem hesitação.

- Engole, agora.

Escorria pelos cantos de sua boca, aquele líquido viscoso e branco. Vê-lo cair, e sua cara de súplica, me enchia de raiva. Levantei a mão e ela, de forma sofrida, foi engolindo aos poucos.

Então, ela vomitou.

- Sua idiota, olha o que você fez! Vomitou no meu pé todo!

- Eu não queria...

Dei um chute que a fez cair no chão. Ela, pelo menos, não chorava. Já tinha aprendido. Me aproximei e fiquei por cima dela. Era hora dela aprender uma nova lição.

- Lambe - apontei meu pé vomitado em sua cara.

- Não... eu...

- Lambe, sua desgraçada - sibilei com fúria.

Uma lágrima se formou em seu olho e eu enfiei o pé em seu rosto. Ela virou-o, de reflexo.

- Lamba. Agora. - ela me encarou assustada - Estou perdendo a paciência.

De forma insegura e lenta, ela aproximou sua língua do meu pé, do vômito. Tremia dos pés à cabeça. Até que, por fim, encostou-a no seu próprio vômito, e começou a lambê-lo como se fosse um picolé.

De cima dela, eu a olhava com todo o amor do mundo, enquanto ela lambia meu pé e se masturbava freneticamente.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Lyla e o choro

Um dia, o mundo parou de chorar.

O mundo, menos Lyla. Atores tentavam, médicos e cientistas não entendiam, nem mesmo os bebês conseguiam. Apenas Lyla, no mundo todo, conseguia chorar. E ela chorava o tempo todo!

Lyla chorava ao ver filmes de terror, ao ver bebês sorrindo, ao ouvir um "eu te amo" qualquer. Era difícil ver seu rosto sem uma lágrima escorrendo. E ela não aguentava mais viver chorando.

Assim, Lyla pegou suas coisas e foi atrás do Choro, que, diziam, morava numa montanha, numa terra onde chovia muito. E lá, numa montanha chuvosa, ela o encontrou:

- Senhor Choro, por que o mundo parou de chorar, e eu não?

- Ora, minha filha - ele disse com voz chorosa - as pessoas não me davam mais valor.

- Mas...

- Você, por outro lado, só chorava na hora mais necessária, no mais sofrido tormento, ou na mais sincera alegria. Você sabe, eu sou o irmão gêmeo do Riso.

Lyla viu que o Choro se sentia solitário. Choro viu que Lyla se sentia infeliz. Arrependido, ele retornou as coisas como elas eram antes e Lyla tornou-se amiga do Choro.

Desta vez, feliz.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Quando chove


Quando chove lá fora, eu lembro porque estou aqui dentro.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Entrevista com John

Estou aqui inaugurando uma nova seção neste blog. Começarei a fazer entrevistas, e a primeira é com o importantíssimo John. Talvez um dia vocês entendam por que ele é importante.

FNORD: Olá, John.

JOHN: Coéa.

FNORD: Me fale, John, qual é sua ocupação atual?

JOHN: Eu sou escritor, quando necessário, e vagabundo, quando preciso. Minha única ocupação fixa é a desocupação.

FNORD: Você é escritor. Algum projeto em andamento?

JOHN: Tem um romance rolando aí, um dia sai. Vou matutando ele com jeitinho que eu quero que fique bom pra caralho, sabe?

FNORD: E como você se mantêm? Digo, você está aí bem vestido e tudo o mais...

JOHN: Esse terno aqui? Minha namorada que me deu.

FNORD: Quem é sua namorada, John? Ela é rica?

JOHN: Isso depende do dia da semana. Hoje, por exemplo, minha namorada é a vida, mas quinta passada foi uma morena muito gostosa, mesmo. Mas nem foi ela quem me deu essa roupa e talz... se importa se eu fumar?

FNORD: Me importo, sim.

JOHN: Bem, que pena pra você, não é mesmo?

FNORD: Ok. Me fala, então, o que você acha do amor.

JOHN: O amor é bom, cara. Eu amo muito, as pessoas ficam amarrando amor, mas eu não. O problema é que amor se perde, sei lá, não entendo muito disso, mas eu acho difícil eu amar alguém pra valer. Quero dizer, assim, tive lá uns dois amores na vida, daqueles de querer morrer quando acaba, mas amei muita gente, muitas mulheres e uns dez cachorros que eu tive.

FNORD: Cachorro? Como é isso?

JOHN: Porra, cara, quem não ama um cachorro? Um cara desses merece tomar um soco na cara, na boa. Olha só, você não gosta de cachorro não?

FNORD: Gosto, mas sou eu quem está entrevistando você, não o contrário.

JOHN: Tá, um dia eu te entrevisto então, deve ser divertido. Você é um cara esquisito pra caramba, acho que seria até mesmo capaz de falar consigo mesmo.

FNORD: Você é capaz disso, John?

JOHN: Eu falo comigo o tempo todo. Puta, agora mesmo! É do caralho demais, velho. Você vai e panz, bate um papo consigo mesmo, se exterioriza pra se interiorizar, esse mimimi todo de psicoseiláoquêista. Enfim.

FNORD: Você parece ser bastante cético. É ateu?

JOHN: Nem fodendo, velho. Precisa de Deus pra criar algo tão gostoso quanto o bacon, na moral.

FNORD: Mas você não é exatamente crente...

JOHN: Igreja e o escambau? Não. Acho bonito e talz, mas assim, meu templo é um copo de uísque, minha missa é andar nos bares, sou vagabundo, se entro na igreja é em dia de festa. Velório também, me dá inspiração pra escrever vendo aquela gente triste.

FNORD: Por quê?

JOHN: Ou, para e pensa: se você morre e vai pro céu, porque tanto valor assim pra vida, velho? Se um velhinho tá lá doente pra cacete, deixa o sujeito morrer em paz, ele não vai pro céu? O feto lá, que nem nasceu, poxa, ele é felizardo, nem vai ouvir falar em pecado, futebol, nada disso.

FNORD: Então você é a favor da eutanásia e do aborto?

JOHN: Como todo bom homem sensato. Todo cara sensato é a favor da morte. Olha como nós estamos indo superbem - já podemos acabar com todas as guerras, só falta um cara sensato mandar explodir aquelas bombas todas de uma vez.

FNORD: E como você não dá valor a seres humanos...

JOHN: Calma lá, uma coisa é não supervalorizar a vida, outra é subestimar os seres humanos. Ser humano é do caralho. Todo animal nasce, cresce, trepa pra reproduzir, caça pra comer, depois morre. A gente não faz nada disso. A gente come pra engordar, trepa só pra gozar, caralho, a gente é muito bom nesse negócio de morrer. Inventamos o homicídio, porra.

FNORD: Isso é bom?

JOHN: É. Você mata alguém, é menos uma possibilidade de ser um filho-da-puta assassino. Puro altruísmo, não é? Vou fumar outro cigarro.