Estou aqui inaugurando uma nova seção neste blog. Começarei a fazer entrevistas, e a primeira é com o importantíssimo John. Talvez um dia vocês entendam por que ele é importante.
FNORD: Olá, John.
JOHN: Coéa.
FNORD: Me fale, John, qual é sua ocupação atual?
JOHN: Eu sou escritor, quando necessário, e vagabundo, quando preciso. Minha única ocupação fixa é a desocupação.
FNORD: Você é escritor. Algum projeto em andamento?
JOHN: Tem um romance rolando aí, um dia sai. Vou matutando ele com jeitinho que eu quero que fique bom pra caralho, sabe?
FNORD: E como você se mantêm? Digo, você está aí bem vestido e tudo o mais...
JOHN: Esse terno aqui? Minha namorada que me deu.
FNORD: Quem é sua namorada, John? Ela é rica?
JOHN: Isso depende do dia da semana. Hoje, por exemplo, minha namorada é a vida, mas quinta passada foi uma morena muito gostosa, mesmo. Mas nem foi ela quem me deu essa roupa e talz... se importa se eu fumar?
FNORD: Me importo, sim.
JOHN: Bem, que pena pra você, não é mesmo?
FNORD: Ok. Me fala, então, o que você acha do amor.
JOHN: O amor é bom, cara. Eu amo muito, as pessoas ficam amarrando amor, mas eu não. O problema é que amor se perde, sei lá, não entendo muito disso, mas eu acho difícil eu amar alguém
pra valer. Quero dizer, assim, tive lá uns dois amores na vida, daqueles de querer morrer quando acaba, mas amei muita gente, muitas mulheres e uns dez cachorros que eu tive.
FNORD: Cachorro? Como é isso?
JOHN: Porra, cara, quem não ama um cachorro? Um cara desses merece tomar um soco na cara, na boa. Olha só, você não gosta de cachorro não?
FNORD: Gosto, mas sou eu quem está entrevistando você, não o contrário.
JOHN: Tá, um dia eu te entrevisto então, deve ser divertido. Você é um cara esquisito pra caramba, acho que seria até mesmo capaz de falar consigo mesmo.
FNORD: Você é capaz disso, John?
JOHN: Eu falo comigo o tempo todo. Puta, agora mesmo! É do caralho demais, velho. Você vai e panz, bate um papo consigo mesmo, se exterioriza pra se interiorizar, esse mimimi todo de psicoseiláoquêista. Enfim.
FNORD: Você parece ser bastante cético. É ateu?
JOHN: Nem fodendo, velho. Precisa de Deus pra criar algo tão gostoso quanto o bacon, na moral.
FNORD: Mas você não é exatamente crente...
JOHN: Igreja e o escambau? Não. Acho bonito e talz, mas assim, meu templo é um copo de uísque, minha missa é andar nos bares, sou vagabundo, se entro na igreja é em dia de festa. Velório também, me dá inspiração pra escrever vendo aquela gente triste.
FNORD: Por quê?
JOHN: Ou, para e pensa: se você morre e vai pro céu, porque tanto valor assim pra vida, velho? Se um velhinho tá lá doente pra cacete, deixa o sujeito morrer em paz, ele não vai pro céu? O feto lá, que nem nasceu, poxa, ele é felizardo, nem vai ouvir falar em pecado, futebol, nada disso.
FNORD: Então você é a favor da eutanásia e do aborto?
JOHN: Como todo bom homem sensato. Todo cara sensato é a favor da morte. Olha como nós estamos indo superbem - já podemos acabar com todas as guerras, só falta um cara sensato mandar explodir aquelas bombas todas de uma vez.
FNORD: E como você não dá valor a seres humanos...
JOHN: Calma lá, uma coisa é não supervalorizar a vida, outra é subestimar os seres humanos. Ser humano é do caralho. Todo animal nasce, cresce, trepa pra reproduzir, caça pra comer, depois morre. A gente não faz nada disso. A gente come pra engordar, trepa só pra gozar, caralho, a gente é muito bom nesse negócio de morrer. Inventamos o homicídio, porra.
FNORD: Isso é bom?
JOHN: É. Você mata alguém, é menos uma possibilidade de ser um filho-da-puta assassino. Puro altruísmo, não é? Vou fumar outro cigarro.